João da Silva
O Cerrado, nosso bioma

 O Cerrado é a savana mais biodiversa do mundo e essa riqueza distribui-se nos seus 2 milhões de km², sendo o segundo maior bioma da América do Sul e do Brasil.1–3 Desta forma, o Cerrado está conectados com os quatro dos cinco grandes biomas brasileiros: a floresta Amazônica, o Pantanal, a Caatinga e a Mata Atlântica.4,5 Apesar da sua grande riqueza o Cerrado é um dos biomas mais ameaçados do mundo com praticamente metade da sua área natural já desmatada.3,6,7 É Considerado um dos hotspots para conservação da biodiversidade mundial, pois possui altas taxas de endemismo e devido os constantes impactos antrópicos sobre o bioma.3

O Cerrado é chamado de ‘berço das águas’ ou ‘caixa d’água do Brasil’, por possuir as nascentes de importantes bacias hidrográficas do Brasil Central: Paraná-Paraguai, Tocantins-Araguaia, São Francisco e Parnaíba.4,5,8 A água proveniente dessas bacias abastece os sistemas ecológicos desse e de outros biomas, como Caatinga e Pantanal, e até de bacias da Bolívia e do Paraguai.4 Em relação ao clima, o Cerrado é marcado pela forte sazonalidade das estações seca e chuvosa.5 O período seco ocorre entre os meses de abril e setembro, e a estação chuvosa ocorre entre outubro e março.5

O Cerrado é um bioma muito antigo, originou-se há mais de 80 milhões de anos, desta forma, os solos do bioma são antigos, profundos e bem drenados.4 Entretanto, são pobre em nutrientes, frequentemente ácidos e com alto teor de alumínio.4,9 Estas características do solo também estão presentes nas savanas da Austrália, África e América do Norte.5

As plantas nativas do Cerrado são adaptadas às peculiaridades do bioma, proporcionando a um existência de mosaico típico diverso.4,9 Dessa forma, o Cerrado possui três grupos distintos de formações vegetacionais: campestres, savânica e florestal. São descritas onze tipos de fisionomias do bioma, dentre elas estão os campos rupestre, limpo e sujo (formação campestre); cerrado em sentido restrito e veredas (formação savânica); cerradão e as matas ciliar, galeria e seca (formação florestal).

Estes mosaicos são habitat de inúmeras espécies da fauna e da flora brasileira. O bioma possui cerca de 30% da biodiversidade brasileira, além de possuir centros de endemismo, locais com muitas espécies que só ocorrem ali, como no caso da Serra do Espinhaço (MG), das chapadas dos Veadeiros (GO) e dos Guimarães (MT).5,10

O conhecimento sobre a biodiversidade do Cerrado ainda contém lacunas, especialmente na escassez de informações sobre a fauna. O Cerrado é habitat de cerca de 250 espécies de mamíferos, cerca de 837 espécies da avifauna, mais de 210 espécies de anfíbios, mais de 300 espécies de répteis e são conhecidos cerca de 1.200 espécies de peixes. Além de possui mais 13.140 espécies de plantas catalogada.1,5

O Cerrado em pé tem grande importância socioambiental tanto pelas ligações da biodiversidade do bioma com os povos tradicionais quanto para prover os serviços ecossistêmicos além da identificação da população com o ambiente que vive.5,11 O bioma possui uma grande diversidade social e cultural devido a sua variedade de povos indígenas e comunidades tradicionais.12 São mais de 80 etnias indígenas presentes no bioma, além de comunidades tradicionais como quilombolas, geraizeiros, vazanteiros, quebradeiras de coco, ribeirinhos, entre tantos outros.13

A ocupação mais intensa do Cerrado iniciou-se no século 18 com a exploração do ouro.4 Desde então, o bioma vem sofrendo rápidas perdas, que muitas delas são irreversíveis. Atualmente, 46% da vegetação natural do Cerrado já foi desmatada.6 E estes desmatamentos são ocasionadas principalmente pela agropecuária e pela produção de commodities internacionais.6,7

Por esses tantos outros motivos a conservação do Cerrado brasileiro é necessária, pois a sua perda pode ocasionar impactos localmente e mundialmente. Estratégias de mitigação como aumentar o número de criação de Unidades de Conservação (UC) de maior proteção ambiental como no caso das UC de Proteção Integral Federais é um dos principais mecanismos de manutenção do biodiversidade a longo prazo.10,14,15 Já que essa categoria de UC tem maior potencial de conter o desmatamento, porém atualmente elas representam somente uma pequena porcentagem (3,2%) do bioma.10,14

Referências:
 
1. Critical Ecosystem Partnership Fund. Perfil do Ecossistema Hotspot de Biodiversidade do Cerrado. (2017).
2. Instituto Brasileiro Geografia e Estatística. Brasil em síntese Território. https://brasilemsintese.ibge.gov.br/territorio.html (2004).
3. Myers, N., Mittermeier, R. A., Mittermeier, C. G., da Fonseca, G. A. & Kent, J. Biodiversity hotspots for conservation priorities. Nature 403, 853–858 (2000).
4. FERNANDES, G. et al. Cerrado: em busca de soluções sustentáveis. (2016).
5. Conhecendo a biodiversidade. (MCTIC, CNPq, PPBio, 2016).
6. Mapbiomas. Mapbiomas. Mapbiomas https://mapbiomas.org/ (2019).
7. Alencar, A. et al. Mapping Three Decades of Changes in the Brazilian Savanna Native Vegetation Using Landsat Data Processed in the Google Earth Engine Platform. Remote Sens. 12, 924 (2020).
8. Universidade de Brasília. Revista Darcy - EDIÇÃO n. 21. http://revistadarcy.unb.br/edicao-n-21 (2019).
9. Haridasan, M. Nutritional adaptations of native plants of the cerrado biome in acid soils. Braz. J. Plant Physiol. 20, 183–195 (2008).
10. Françoso, R. D. et al. Habitat loss and the effectiveness of protected areas in the Cerrado Biodiversity Hotspot. Nat. Conserv. 13, 35–40 (2015).
11. Instituto Sociedade, População e Natureza. Programa de Pequenos Projetos Ecossociais na Caatinga e no Cerrado - Portfólio 2013-2018. ISPN - Instituto Sociedade, População e Natureza https://ispn.org.br/programa-de-pequenos-projetos-ecossociais-na-caatinga-e-no-cerrado-portfolio-2013-2018/ (2019).
12. Instituto Sociedade, População e Natureza. Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado. ISPN - Instituto Sociedade, População e Natureza https://ispn.org.br/biomas/cerrado/povos-e-comunidades-tradicionais-do-cerrado/
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"Valorizar o cerrado e aqueles que com ele vivem é
a forma mais eficiente de conservá-lo."