João da Silva
A Restauração do Cerrado e suas Raízes
Percepções sobre Técnicas e Objetivos da Restauração do Cerrado
A  restauração ecológica é ação-chave para garantir o provimento de serviços ecossistêmicos, além de atender as demandas legais sanando o extenso passivo ambiental acumulado ao longo dos anos.  Para investigar o posicionamento de atores da restauração ecológica no Cerrado e suas relações com as técnicas disponíveis, o Instituto Cerrados realizou a pesquisa “Percepção sobre técnicas e objetivos da restauração no Cerrado”. 

Os pesquisadores responsáveis são Alexandre Sampaio,  Engenheiro Florestal e Pós-Doutor em Ecologia e Silvia Rodrigues, bióloga e Msc em Ecologia. A pesquisa conta com o financiamento do Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF, na sigla em inglês) e apoio do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) 

A respostas analisadas foram obtidas através de questionário entregue aos  principais atores da restauração ecológica do Cerrado. As respostas  foram analisadas com base no conhecimento existente sobre a ecologia do Cerrado e pesquisas feitas na área de restauração ecológica. Dentre os fatores que tornam a restauração desse bioma um desafio, destaca-se uma demanda recente para restauração de áreas degradadas e a característica de heterogeneidade do Cerrado, formado por diferentes tipos de vegetação que desempenham papéis únicos para a manutenção dos serviços ambientais e são, portanto, insubstituíveis.

Os resultados são apresentados no infográfico a seguir:
 

O infográfico representado por uma árvore aponta as técnicas de restauração (frutos) escolhidas pelos participantes da pesquisa para o alcance de diferentes objetivos (ramos). 

As fontes de informação que subsidiaram as escolhas foram apresentadas para cada técnica (gotas) e de maneira geral (raízes)

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Sobre os resultados:

A semeadura direta, técnica entendida como ato de depositar no solo sementes ou partes de plantas na ausência de mobilizações intensas de solo, foi apontada como a mais adequada para atingir produção de água, recomposição da biodiversidade e atendimento da demanda legal. Estudos científicos já corroboram que a utilização da semeadura direta para a restauração de vegetações savânicas e campestres é capaz de restabelecer também o estrato herbáceo-arbustivo com espécies nativas.

Os sistemas agroflorestais, a semeadura direta e o plantio de mudas foram apontados de forma parecida, como adequadas para sequestro de carbono e o controle da erosão. Já os sistemas agroflorestais foram a principal técnica apontada para conservação associada à produção.
Ressaltamos que estas técnicas podem trazer diversos benefícios ecológicos à área, porém a escolha da técnica para se restaurar uma área no Cerrado deve ser feita com cautela, considerando os recursos disponíveis e, indispensavelmente, a vegetação original. Muitas técnicas utilizadas amplamente na restauração do Cerrado possuem o propósito de formar uma floresta, o que pode ser chamado de aflorestamento ou expansão florestal, ou seja, o plantio de árvores e o desenvolvimento de florestas em locais onde não ocorrem historicamente.

Ao plantar apenas árvores de florestas por meio destas técnicas, a vegetação a ser estabelecida será estruturalmente e funcionalmente bastante distinta da original. Isso pode gerar um funcionamento do ecossistema que pode não ser o mais eficiente para o sequestro de carbono e para a recarga e regulação dos rios.

Subestima-se a contribuição em nível global que o Cerrado fornece quanto ao armazenamento de carbono. De acordo com estudos científicos, a maior parte da biomassa está nas raízes, em estruturas subterrâneas e no solo, caracterizando um estoque de carbono estável18, pois está resguardado de incêndios que queimam apenas a vegetação acima da superfície. A situação é diferente em florestas, onde a maior parte da biomassa está estocada no tronco das árvores, que ao serem queimados prontamente liberam todo carbono de volta para a atmosfera.

Além disso, as vegetações nativas desempenham um papel essencial na recarga de reservas subterrâneas e no abastecimento de corpos d’água, regulando o ciclo hidrológico e o clima, sendo, portanto, vegetações insubstituíveis. O aflorestamento, a expansão florestal e o uso de espécies exóticas invasoras, comum em sistemas agroflorestais, são processos especialmente delicados no Cerrado tendo em vista que a cada uma espécie arbórea são encontradas cerca de cinco espécies de arbustos e ervas, cujo principal ambiente são campos e savanas. De forma que a perda ou substituição destas vegetações acarreta em uma grande perda de biodiversidade no Cerrado.

Existem diversas técnicas de restauração que podem ser empregadas para alcançar o mesmo objetivo e há espaço e demanda para divulgação de conhecimento sobre o assunto. A diversidade do bioma e das técnicas para sua restauração são riquezas a serem combinadas cuidadosamente com o objetivo e condições de cada área a ser restaurada. O diálogo, a produção de conhecimento bem como seu compartilhamento são princípios essenciais para o sucesso do processo de restauração do Cerrado.

Texto realizado com informações do artigo “A restauração do Cerrado e suas raízes.Percepções sobre Técnicas e Objetivos da Restauração do Cerrado”
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"Valorizar o cerrado e aqueles que com ele vivem é
a forma mais eficiente de conservá-lo."